
O Faraó que não conhecia Yossef
Começamos esta semana o segundo livro do Chumash, Shemot, e na Parashá que dá seu nome ao livro, definitivamente entramos no exílio mais profundo.
Após a contagem dos nomes dos filhos de Yaakov e a morte de Yossef, de seus irmãos e de toda a sua geração, a Torá ressalta como os filhos de Israel eram férteis e se multiplicaram. Logo a seguir, vem um versículo que chama a atenção de Rashi:
“E subiu ao poder um novo rei no Egito, que não conheceu Yossef”.
Rashi, para explicar este versículo, traz uma controvérsia na Guemará, na qual uma opinião argumenta que se tratava realmente de um novo rei e outra opinião que diz se tratar do mesmo rei, porém, que renovaram seus decretos.
Mas o comentário de Rashi que mais chama a nossa atenção nesse versículo refere-se às palavras “que não conheceu”, em que Rashi comenta “agiu como se não conhecesse Yossef”, como assim “como se”?
Quantos eventos e situações na vida de um indivíduo ocorrem ’’como se fossem” uma coisa, mas na verdade não são? Eis que me pergunto, o que leva alguém a fumar ’’como se” não lhe fosse prejudicial? O que leva um sujeito a desejar algo ’’como se” não soubesse que é proibido, ou a dizer algo ’’como se” não machucasse o outro. No contexto atual, o que leva um militante dos direitos humanos a apoiar o Hamas ’’como se” não representassem toda e qualquer violação dos princípios básicos de humanidade? E a pergunta que se faz necessária: o que leva um homem a não comentar sobre o vestido novo que sua esposa está usando ’’como se” não soubesse das consequências catastróficas do seu silêncio?
Voltemos à parashá: Como o Faraó pôde agir ’’como se” não conhecesse Yossef, o vice-rei do Egito, o emissário de Hashem que salvou o Egito e todas as outras terras da fome?
Na prática, é justamente nessas palavras “como se não conhecesse Yossef” que encontramos a definição do conceito de exílio:
Um estado de déficit de atenção onde somos distraídos e não nos focamos no que está bem na nossa cara.
Faraó ignorou completamente a incrível história de Yossef no Egito e iniciou novos decretos contra o povo judeu, que um dia foram os mesmos que salvaram o Egito da fome!
O mesmo se aplica a nós, estar em um ‘’exílio’’ significa simplesmente que não conseguimos enxergar as oportunidades dentro dos desafios, a redenção dentro do exílio! Sim, justamente na parashá Shemot, o início do exílio, encontramos como justamente nela está a própria redenção. Interessantemente, o livro Shemot é também conhecido como Sefer ha’Gueula (“livro da redenção”).
A parashá Shemot, como foi comentado, começa contando os nomes das tribos dos filhos de Yaakov que desceram para o Egito, para o Exílio, porém existe um midrash que comenta que a contagem dos nomes se faz em lembrança à redenção e saída do Egito. Essa aparente contradição se encontra no conceito “nome”. Por um lado, o nome de uma pessoa representa algo externo que o outro usa para chamá-lo e que não necessariamente identifica algo sobre o próprio indivíduo. Afinal, duas pessoas podem ter o mesmo nome e terem características bem diferentes uma da outra, ou até mesmo opostas. Por outro lado, o nome contém a essência da pessoa, como quando uma pessoa se encontra desfalecida e, para tentarmos trazê-la à consciência, gritamos justamente pelo seu nome, Mendy!, Mussy!, não chamamos pelas características externas e reveladas da pessoa como “acorde, inteligente” ou “Está me escutando, sensível?”.
Quem nos traz essa força para abrir a porta e literalmente puxar a Gueula para dentro da Galut… Raboteinu Nessienu, nossos grandes mestres e lideres, desde Admor Hazaken até o Rebbe, líder da geração, todos eles descendentes de Maharal de Praga, descendente de Davi ben Ishay.
A começar por Admor Hazaken, sétima geração desde Maharal, em que comemoramos a elevação de sua alma hoje, 24 de Tevet. Rabi Shneur Zalman elevou-se na saída do Shabat Shemot após meses na Galut perseguido por Napoleão.
E de onde vem a força que ele nos trouxe para trazer a redenção? O Tanya, a Torá da Chassidut, nos revela os princípios da Cabalá ao alcance de todo filho e filha de Israel, que o objetivo de um judeu é refinar sua alma animal, seu corpo e o mundo e, consequentemente, eliminar o “como se” de nossos olhos e trazer a redenção, de forma maravilhosa, como o Rebbe nos traz de que os últimos momentos do exílio serão os primeiros momentos da redenção!
Agora!
E o que falta? Aquela mitzva pequena, aquela mesmo que você acha que não vale muito ou que não vai mudar o mundo, essa mesma! O que você está esperando? O Rebbe já nos disse como trazer a redenção!
Temos que abrir a porta e puxar a redenção para dentro do exílio, não “como se”, mas “mamash” literalmente!
Shabat Shalom!

